A 2ª categoria visita Cezimbra (reportagem de 1927)

Esta reportagem foi escrita por Joaquim Ferreira Bogalho, em 1927, que era na altura colaborador do Boletim Informativo do Sport Lisboa e 'Bemfica', e que viria mais tarde, nos anos 50, a tornar-se num dos mais acarinhados presidentes do nosso clube.



" No domingo 29 de Maio, a convite do União Football de Cezimbra, deslocou-se aquela vila a nossa segunda categoria.
Depois de uma viagem de duas horas em camionette, por uma estrada em perfeito estado selvagem, lá conseguimos chegar à risonha praia, sem nos faltar (certamente por acaso) qualquer parte do corpo.
Foi uma travessia tormentosa, em que houve que fazer prodígios de energia para não desanimar a meio do caminho. Entre a rapaziada reinou porém a boa disposição, encarando-se o sacrifício com o sorriso nos lábios, e assim quasi chegamos a convencer-nos que a tal camionette e a tal pseudo estrada nos proporcionara uma viagem que não ficou a dever grande coisa à comodidade com que se viaja em qualquer primeira classe, dum comboio rápido.

A's 3 horas, chegamos a Cezimbra, onde fomos amavelmente recebidos. O jogo começava às seis. Havia portante 3 horas de espera, que aproveitámos para visitar os pontos mais interessantes, acompanhados pelos diretores do Clube local.
Alguns jogadores começaram, porém, a sentir o efeito dos balanços da camionette. Os estômagos começaram a queixar-se e houve a necessidade de os atender.
Em Cezimbra não há 'restaurants', de maneira que fomos parar a uma casa, denominada Cozinha Economica Cezimbrense. O dono, um hespanhol muito exótico, quiz ser amável para comnosco e apresentou-nos uma toalha interessantíssima.
Era um autêntico mapa de Portugal, mas pintado de maneira tão original, que dava exatamente a impressão de ser uma enorme quantidade de... nódoas. As facas e os garfos pareciam ter horror à água, mas como quando há fome tudo se come, lá nos atirámos valentemente a uns carapaus assados, com um azeite que, para não fugir à regra, era excelente para deitar fora.
Alguns estômagos sentiram o efeito. Mata e Simões (que acompanhou o grupo) tiveram que meter água por duas vezes.

A's seis horas e meia, iniciou-se o jogo, que foi arbitrado por nós, a convite do capitão do grupo de Cezimbra. A constituição do nosso grupo era a seguinte: Adrião, Agostinho, Luiz Costa, Mateus, Travassos, Manoel Carreira, Evaristo, Albuquerque, Mata, Germano, Coelho. O nosso grupo entrou em campo convencido de uma fácil vitória. Nós também tínhamos essa impressão, pois embora não conhecêssemos bem o grupo local, não era crível que ali fossemos encontrar um 'onze' capaz de vencer o campeão de Lisboa, de segundas categorias, embora não apresentando este a sua melhor constituição.
As primeiras jogadas foram de vantagem para o nosso grupo, que, jogando à vontade, fez coisas interessantes, realizando avançada em que a bola girava de um a outro campo, quasi sem ser tocada pelos adversários.
Desta faze de bom jogo saíram dois 'goals', feitos no primeiro quarto de hora e a vantagem adquirida com tanta facilidade mais convenceu os nossos de um triunfo fácil. Mas bem depressa começou a desenhar-se a desilusão. Pouco tempo depois os adversários conseguiam o seu primeiro ponto. Os cezimbrenses animara extraordinariamente com a sua proeza e os nossos, ainda confiantes, conseguem marcar pela terceira vez. Antes de findar a primeira parte, o grupo Cezimbrense marcou o seu segundo 'goal', acabando a primeira metade com o resultado de 3-2 a nosso favor.

Na segunda parte as coisas modificaram-se completamente; o grupo local, jogando positivamente 'à la diable', mas com decidida vontade de bem colocar as cores do seu clube, ataca energicamente e consegue logo de início o ponto do empate. Os nossos desorientaram-se e os adversários aproveitaram essa circunstância para dominarem em absoluto. Daqui por diante, os nossos não existiram, incapazes de reagir, deixando-se vencer de maneira incompreensível.
Os simpáticos Cezimbrenses não tiveram por isso dificuldade em aumentar o seu activo até seis 'goals', terminando assim o jogo com a péssima derrota do nosso grupo, por 3-6.

Como acima dizemos, antes do jogo contávamos com a vitória dos nossos, e depois dele terminado, ficámos a pensar como pode um grupo que ganhou o campeonato de Lisboa, de segundas categorias, ser derrotado tão estrondosamente po um outro lhe é nitidamente inferior, não obstante o seu grande entusiasmo. Tem destas coisas o 'foot-ball' e porisso temos que curvar-nos perante os factos: 3-6 e mais nada. O nosso grupo naufragou completamente jogando contra um adversário que praticava um jogo desconcertante, não souberam manter a calma necessária, impondo o seu jogo e os seus conhecimentos. Os adversários praticaram o jogo do pontapé para a frente e os nossos seguiram-lhe o exemplo. Aceitaram a luta tal qual os adversários lh'a impuseram e porisso sossobráram. De todos os jogadores apenas um se salvou: Mateus. Foi o único que manteve durante todo o desafio uma toada de bom jogo, a contrastar flagrantemente com o dos seus colegas.

Dos restantes não vale a pena falar; estiveram todos a ver e vá lá que podia ser muito pior. No entanto, diremos ainda que Adrião foi em grande parte o culpado do grosso desaire. Das 6 bolas, 3 não têem desculpa para um guarda-redes de verdade. Coelho, Albuquerque e Evaristo marcaram os nossos 3 'goals'.

Depois do jogo o união ofereceu aos nossos representantes um jantar que decorreu na melhor das boas disposições, apesar do 3-6.
Para disfarçar havia a necessidade de sorris. Só Mateus se mostrava mal disposto e aborrecido. Depois de breves palavras de agradecimento por parte de um representante do Director do União de Cezimbra e do autor destas linhas, tomámos novamente a camionette que havia de nos conduzir a Cacilhas.
Os jogadores para espalhar tristezas vieram, pelo caminho, cantando ao desafio. Todos largaram as suas larachas para melhor passar o tempo. Mateus, o algarvio, foi o único que se conservou silencioso. Das vezes que falou, foi para ralhar com o Adrião, a quem culpa da derrota.
Mateus foi o jogador (talvez por ter o estômago fraco) a quem os 3-6 mais custou a digerir.

J. Bogalho"

5 comentários:

B Cool disse...

muito bom

Ricardo disse...

Fantástico. É Benfica!

Fehér 29 disse...

cabrão do adrião...XD

Fernando Ribeiro disse...

A culpar um colega de equipa? Devia ser vendido aos turcos!!!!

Carlos Alberto disse...

Ou seja... o proprio Bogalho escreve que dos 11 só um, o Mateus é que jogou à bola mas a culpa é do cabrão do guarda-redes que apesar de ter 9 abéculas à sua frente devia ter sido "um guarda-redes de verdade"

Ser GR é foda mesmo